Estado mental
Capítulo 11, item 11
“... O egoísmo é, pois, o objetivo para o qual todos os verdadeiros crentes devem dirigir suas armas, suas forças e sua coragem; digo coragem porque é preciso mais coragem para vencer a si mesmo do que para vencer os outros...”
(Capítulo 11, item 11.)
Para que atinja a espiritualidade, já afirmavam as antigas religiões do Oriente, seria preciso que o homem se apartasse do ―maya‖, que são as ilusões da existência, do nascimento e da morte.
Para que pudesse conquistar o ―nirvana‖, diziam que seria imperativo extinguir todo o desejo de ser, aniquilando assim o ―ego‖ que é a individualidade exaltada e distraída pelas fantasias do mundo.
Ao mesmo tempo, encontramos Jesus Cristo instruindo-nos que, para alcançarmos o ―Reino de Deus‖, é preciso nos despojarmos do ―egoísmo‖, o terrível adversário do progresso espiritual.
As Bem-Aventuranças do Mestre nada mais são do que vias para se alcançar a iluminação, ou seja, elevar-se através da mansuetude, humildade e simplicidade, abandonando todo sentimento de personalismo.
A moderna psicologia tem toda a atenção voltada para que as pessoas entrem em contato com a realidade e terminem com suas ilusões, que são as causas da distorção de sua visão e percepção de si mesmas em relação às outras.
O ―maya‖ das religiões orientais era tudo que impedia as almas de atingir o estado de ―bem-aventurados‖, também conceituado como ―nirvana‖ ou ―reino dos céus‖, conforme as diferentes denominações e crenças religiosas.
É realmente a ilusão de satisfazermos os próprios interesses em detrimento dos interesses dos outros que caracteriza o estado de egoísmo - um conjunto enorme de ilusões, que nos tira do senso de realidade e de uma compreensão mais acurada de tudo e de todos. ―Não devo ser contrariado‖, ―Preciso controlar os outros‖, ―Sou dono da verdade‖, ―Nunca poderia ter acontecido comigo‖ são atitudes ilusórias herdadas por nós de crenças despóticas e prepotentes, filhas da egolatria, ou seja, do ―culto ao eu‖. As ilusões de ―tudo para mim‖ ou de ―tudo girar em torno de mim‖ vêm do interesse individualista, resquício da animalidade por onde transitamos, em priscas eras, em contato com os reinos menores da natureza. A caça no mundo animal nada mais é do que o uso dos instintos de preservação e conservação. Felinos de grande ou pequeno porte como, por exemplo, o leão e o gato, matam seres indefesos e cordiais, como o antílope e o beija-flor, para alimentar unicamente a si próprios e suas crias. Não devem, porém, ser considerados como egoístas e cruéis, pois somente colocam em prática os mecanismos atávicos de sua criação, frutos da própria Natureza. ―O egoísmo e o orgulho têm a sua fonte num sentimento natural: o instinto de conservação.
Todos os instintos têm sua razão de ser e sua utilidade, porque Deus nada pode fazer de inútil‖.44 Em quase todas as crianças é perceptível a necessidade exclusivista de atenção dos pais em torno delas, como centro de tudo, com a simples presença no lar de um segundo filho do casal. É natural e compreensível o aparecimento do impulso egóico. O medo de perder suas satisfações, cuidados e compensações psicoemocionais faz com que a criança nessas condições use o ―instinto de preservação‖, a fim de ―conservar‖ o carinho, o afago e o amor, antes somente voltados para ela, e agora divididos com o novo irmão.
O denominado ciúme ou egocentrismo infantil não poderá ser considerado
anormal, desde que não tome proporções alarmantes. E uma reação natural diante de situações verdadeiras ou imaginadas, de perda de afeto, podendo existir sutilmente disfarçada ou claramente demonstrada. Nas criaturas que desenvolvem seus primeiros passos no aperfeiçoamento ético-moral, a tendência egoística é um estado instintivo, próprio do seu grau evolutivo, e não um defeito de caráter incompreensível, nem uma imperfeição inexplicável da índole humana.
―Esse sentimento, encenado em seus justos limites, é bom em si; é o exagero que o torna mau e pernicioso... Como o feto necessita, por determinado tempo, do cordão umbilical ou mesmo da placenta para sua manutenção, assim também a humanidade transformará gradativamente esse impulso inato e ancestral, adquirido através dos séculos e séculos, na luta pela sobrevivência nos estágios primitivos da vida. Essa mesma humanidade absorverá no futuro atitudes mais equilibradas e coerentes com seu patamar evolutivo, aprendendo a usar cada vez melhor seus sentimentos, antes somente instintos. Dessa forma, entendemos que o egoísmo, esse agrupamento de ilusões de supremacia, existirá por determinado período de tempo nas criaturas, até que elas consigam se conscientizar de que a atitude de ―lavar as mãos‖, de Pôncio Pilatos, isto é, consideração excessiva aos seus interesses pessoais, agindo arbitrariamente, trará sempre desilusões e obstrução na percepção do mundo em que vivemos. Já o exemplo do Cristo nos transfere a uma ampla realidade de que o amor é a única força capaz de nos trazer lucidez e equilíbrio no relacionamento conosco e com os outros. Eis o antídoto contra o egoísmo: ―Não fazer aos outros o que não gostaríamos que os outros nos fizessem‖.
45 Obras Póstumas – Allan Kardec, Capítulo O egoísmo e o orgulho.

Incógnitas
Capítulo 10, item 18
“... Todos tendes más tendências a vencer defeitos a corrigir hábitos a modificar; todos tendes um fardo mais ou menos pesado a depor para escalar o cume da montanha do progresso. Por que, pois, serdes tão clarividentes para com o próximo e cegos em relação a vós mesmos?
(Capítulo 10, item 18.)
Analisas a obra assistencial e a criticas, afirmando que a tarefa poderia ser muito melhor, que o atendimento requer técnicas mais apropriadas e que, se outras prioridades fossem atingidas, então as metas sociais seriam mais abrangentes. Mas não te dispões a doar tuas mãos na realização de uma vida melhor aos necessitados.
Analisas o expositor e o criticas, argumentando que a narrativa poderia ser mais convincente e menos enfadonha. Que se ele lançasse mão de recursos de oratória e tivesse um vocabulário mais rico, prenderia mais a atenção e elucidaria melhor os ouvintes.
Mas não te dispões a ler e a estudar, e muito menos a falar em público no serviço de reeducação das pessoas, retirando-as das crenças negativas que bloqueiam vidas.
Analisas o administrador do serviço e o criticas, asseverando que ele mantém posição intransigente e orgulhosa, e julgas que ele deveria ser mais humilde e compreensivo no trato com os dirigidos.
Mas não te dispões a usar a mesma compreensão e humildade exigidas dele, não percebendo que vês o cisco no olho dos outros, e não vês a trave no teu.
Analisas a conduta alheia e a criticas, observando rigorosamente procedimentos e atitudes que julgas inadmissíveis, e te colocas distante e
impermeável a condutas levianas.
Mas não te dispões a ajudar sinceramente a ninguém, e te esqueces de que poderás vir a errar, pois todos os que vivem sobre a Terra são passíveis de enganos e desacertos.
Analisas o governo do país e o criticas, julgando pela tua ótica que todos os parlamentares ou ocupantes de cargos governamentais não são confiáveis nem bons servidores, e que a nação está envolvida no caos.
Mas não te dispões a cooperar e nada fazes pela comunidade em que vives, relegando somente aos governantes obrigações e deveres, esquecendo que todos nós vivemos interligados e que depende também de ti o bem-estar e a prosperidade da população.
Analisas dores e sofrimentos e criticas a vida, dizendo-te sozinho e desamparado perante a Providência Divina e que Deus te abandonou.
Mas não te dispões a renovar-te, não te dando conta que, se não fizeres auto-observação em teus atos e atitudes negativas, continuarás atraindo energias desconexas que te descontrolarão o cosmo orgânico.
Incoerente é a posição de toda criatura que reclama, critica, ofende, esbraveja e que nunca se faz apta a fazer algum bem, em favor de si mesma ou dos outros.
Perplexos ficamos todos nós diante das rogativas das pessoas que solicitam ajuda com os lábios, e nunca com ações; que muito pedem e nunca doam; que somente visualizam as necessidades próprias, e nunca vêem a vida como um ritmo cósmico interconectado com todas as coisas, de maneira que o ―todo‖ é mantido pelo apoio das ―partes‖.
Examinemos, pois, com profundidade nossas críticas, porque elas dificultam a transformação e o progresso de nossa existência, se não forem estruturadas na reflexão e na reparação de nossos erros.
Para que não sejas uma incógnita na vida que Deus te proporcionou, não faças crítica pela crítica, mas sim trabalha como e quanto puderes, sempre em tua órbita de possibilidades, para que a prosperidade seja uma constante em teus caminhos.


Grau de sensibilidade
Capítulo 17, item 4
“... Homens de uma capacidade notória que não a compreendem, enquanto que inteligências vulgares, de jovens mesmo, apenas saídos da adolescência, a apreendem com admirável exatidão em suas mais delicadas nuanças...”
(Capítulo 17, item 4.)
Na realidade, são homens sensíveis todos aqueles que aprenderam a focalizar intensamente a essência das coisas. Sabem sintetizar e observar sem julgamentos prévios as ocorrências e assuntos, examinando-os como eles se apresentam realmente, com uma lucidez e discernimento cada vez maiores.
Sensibilidade é patrimônio do espírito que já atingiu um certo grau de percepção e detecção proveniente do âmago dos fatos. Faculdade esta alicerçada no ―senso de realidade‖, que tem a capacidade de penetrar nas idéias novas, captá-las e analisá-las sutilmente, com admirável eficiência e exatidão.
Há criaturas, porém, que se apegam somente aos fenômenos e manifestações espetaculares do mundo espiritual. Imaturas e insensíveis, não compreendem as conseqüências éticas existentes por detrás dessas mesmas manifestações. Não percebem os horizontes ilimitados que se descortinam em razão da crença na imortalidade das almas, pois não foram ―tocadas no coração‖ pelo sentimento de que o Universo é o lar que abriga a todos nós, eternos viajantes na embarcação da Vida.
Por não possuírem a ―parte essencial‖, não tomam consciência do fato de que existir é participar de uma constante e eterna renovação, que impulsiona as criaturas ao auto-aperfeiçoamento. Há tempo de começar, crescer, transformar e recomeçar,
num eterno reciclar de experiências. Todavia, aqueles cujo ―nível de maturidade‖ foi desenvolvido se diferenciam dos outros, porque focalizam com seus sentidos acurados as profundezas das coisas e, em muitas ocasiões, conseguem até perceber que certas ciências são muito mais espiritualistas do que determinadas crenças ou cultos religiosos. Ciências há que transcendem à vida física pelo somatório de bases universalistas: observam, no interagir das relações entre seres vivos e o meio ambiente, uma associação harmônica de ―Ordem Divina‖ e de cunho fraternalista. Por outro lado, certas religiões deixam muito a desejar quanto ao sentimento de fraternidade: prometem recompensas imediatistas e ficam presas a dogmas materialistas de infalibilidade e autoritarismo. Os seres humanos sensíveis estão despertos tanto em seus sentidos externos quanto internos, estão vivos em plenitude, pois experimentam a atmosfera de cada momento. Estão sempre refletindo e discernindo suas emoções e sentimentos, porque já se permitem experimentar toda uma sucessão de sensações, que decorrem das experiências nas relações humanas. Portanto, podemos confiar em que cada um de nós, a seu tempo, sensibilizar-se-á pelas coisas espirituais, visto que o desenvolvimento de nosso grau evolutivo transcorre natural e incessantemente em decorrência dos impulsos de progresso que recebemos das leis divinas existentes em nós mesmos.
Aqueles que se prendem unicamente aos fenômenos mediúnicos e em nada se transformam espiritualmente encontrarão mesmo assim, nesse comportamento, ―um primeiro passo que lhes tornará o segundo mais fácil numa outra existência‖.43 Trata-se de um processo que não ocorre da noite para o dia, mas que se vai projetando ao longo do tempo e sempre acontece quando estamos prontos para crescer. Aliás, ―quando o aluno está pronto, o professor sempre aparece‖.
43 O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 17º, item 4.

Desapego familiar
Capítulo 14, item 5
“... Mas ele lhes respondeu: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E olhando aqueles que estavam sentados ao seu redor: Eis, disse, minha mãe e meus irmãos; porque todo aquele que faz a vontade de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”
(Capítulo 14, item 5.)
Em correta acepção, desapego quer dizer o sentimento de alguém que desenvolveu sua capacidade de avaliar e selecionar o que ―pode‖ e o que ―deve fazer‖, estruturado em seu próprio senso de autonomia.
Agarrar-se a familiares de modo exagerado gera desajustes e doenças psicológicas das mais diversas características: desde a mais leve das inseguranças - se deve ou não sair de casa para um passeio a sós, ou que roupa deve usar - até o pânico incontrolável de tudo e de todos, que leva o indivíduo ao desequilíbrio em seu desenvolvimento e maturidade emocional.
A reencarnação faz o ser humano exercitar a independência, quando propõe que ele é um viajante temporário entre pessoas, sexo, profissão, países, continentes ou mundos.
Não obstante, ela não destrói os laços do amor verdadeiro, antes cria diversos vínculos afetivos entre as almas. Pais, cônjuges, filhos e amigos voltam a conviver em épocas e em posições completamente diferentes, estabelecendo na consciência uma maneira universalista de ver os relacionamentos da afeição e da simpatia, sem aprisionamentos ou dependências.
É importante compreendermos que, mesmo em família, não viemos à Terra só para fazer o que queremos, para satisfazer fazer nossos caprichos ou nos
agradar, pois não devemos nos ver como devedores ou cobradores uns dos outros, mas como criaturas companheiras que vieram cumprir uma trajetória evolutiva, ora juntas no mesmo séquito consangüíneo. Desse modo, devemos levar em conta a individualidade de cada membro familiar e respeitá-lo, sem imposições ou submissões, pelo modo peculiar que encontrou de ser feliz e dirigir sua própria existência.
Cada pessoa que vive neste planeta deve aprender suas próprias lições, e é inconcebível tentarmos fazer os deveres por elas, porque cada uma aprende com suas próprias experiências e no momento propício.
Podemos, sim, oferecer aos familiares uma atmosfera de compreensão e apoio, para que tenham por si sós a decisão de mudar quando e como desejarem, atitudes essas possibilitadoras de relacionamentos seguros e duradouros.
É imperativo que se entenda que as ações possessivas criam indivíduos servis e profundamente inseguros, que futuramente precisarão ter sempre os familiares em sua volta, como uma ―corte‖, a fim de se sentir amparados.
O exemplo clássico de criaturas apegadas é o daquelas que foram criadas por ―super pais‖, e que durante muito tempo se mantiveram subjugadas e presas pelos fios invisíveis dessa ―suposta proteção‖, que, na realidade, era apenas uma ―forma inconsciente‖ de suprir fatores emocionais desses mesmos adultos em desarranjo.
Crianças que foram educadas sob a orientação de adultos incapazes de estabelecer limites às vontades e desejos delas, contentando-as de forma irrestrita, sem nenhuma barreira, desenvolveram dependências patológicas que geraram progressivamente uma acentuada incapacidade de resolver problemas peculiares a sua idade, enquanto outras, nessa mesma idade, mostraram-se perfeitamente habilitadas para encará-los e solucioná-los.
Crianças que se jogam ao chão, entre crises de falta de fôlego e de choro fácil, sem nenhuma razão de ser, são consideradas mimadas. Tais comportamentos resultam do fato de terem sido tratadas como incapazes e com atitudes infantilizadas.
Pessoas inseguras e insuficientemente maduras educam os filhos da mesma maneira que foram criadas, repetindo para sua atual família os mesmos
comportamentos ―super protetores‖ que vivenciaram na fase infantil; ou mesmo, por terem tido uma enorme experiência de rejeição no lar, também adotam a ―super proteção‖ como forma de compensar tudo o que passaram e sofreram na infância.
Encontramos uma das maiores lições sobre a liberdade e o desapego nas palavras de Jesus de Nazaré, quando se aproveitou da circunstância em que estavam reunidas varias pessoas, e lançou o ensinamento do ―amor sem fronteiras‖.
Apesar de respeitar e amar profundamente sua família, exaltou o ―desapego familiar‖ como a meta que todos deveríamos atingir, a fim de alcançarmos os superiores princípios da fraternidade universal e o verdadeiro sentido da liberdade integral.

Um impulso natural Capítulo 12, item 3 “... Esse sentimento resulta mesmo de uma lei física: a da assimilação e da repulsão dos fluidos...” “... daí a diferença de sensações que se experimenta à aproximação de um amigo ou de um inimigo...” “... Amar os inimigos... é não ter contra eles nem ódio, nem rancor, nem desejo de vingança...” (Capítulo 12, item 3.)
―Amar os inimigos não é, pois, ter para com eles uma afeição que não está na Natureza, porque o contato de um inimigo faz bater o coração de maneira bem diferente do de um amigo‖.40 Na investigação profunda da raiva, do rancor ou da ira, devemos considerar os poderosos e irracionais impulsos de agressividade, espontâneos e inatos na psique humana. São emoções ou formações psíquicas que o espírito partilha com o mundo animal, do qual faz parte e de onde evoluiu.
A moderna teoria evolutiva deve mais a Charles Darwin do que a qualquer outro evolucionista, pois foi toda ela construída nas bases de sua obra intitulada ―A Origem das espécies‖. Hoje está provado cientificamente que as criaturas humanas sofreram um processo de evolução extraordinário. Somente do hominídeo pré-histórico denominado de ―Java‖ ou ―Pithecanthropus erectus‖ até o homem moderno, transcorreram milhares e milhares de anos de desenvolvimento e aprimoramento do organismo do ser vivo.
40 O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 12º, item 3.
Dessa forma, não podemos separar a Natureza de nós mesmos, pois também somos Natureza, já que pertencemos aos mesmos departamentos da vida, desde o mineral, vegetal, animal até ao homem. Na Natureza tudo foi criado com um objetivo e função, porque nada do que está em nós está errado. O que acontece é que, muitas vezes, usamos mal - ou seja, não aprendemos a usar convenientemente e dentro de um senso de equilíbrio - as possibilidades mais íntimas de nossa alma imortal.
Em nossos parentes distantes, os animais irracionais, existe o impulso do ataque-defesa.
Manifesta-se também em nós esse mesmo impulso, denominado ―instinto de destruição‖. É ele uma das primeiras manifestações da lei de preservação, da sobrevivência dos animais em geral, e imprescindível para defendê-los dos perigos da vida.
Nos dias atuais, o termo ―raiva‖ talvez tenha sido interpretado como sendo somente crueldade, violência, vingança, quando, na realidade, significa primordialmente ―estado de alerta‖, visto que essa energia emocional nos aguça todos os demais sentidos, para uma eventual necessidade de proteção e apoio a qualquer fato ou situação que nos coloque em ameaça.
Esse impulso natural possibilita à nossa mente uma maior oportunidade de elaboração, percepção e raciocínio, deixando-nos alerta para enfrentar e sustentar as mais diversas dificuldades. Ativa nossos desejos de realização, impulsiona ações determinantes para rompermos a timidez e constrangimentos, encoraja-nos a nos colocar no meio social e estimula-nos a defesa-fuga diante de situações de risco.
Em vista disso, entendemos que exaltação, irritação, melindre, raiva, ódio, violência ou crueldade fazem parte da mesma família desse impulso, bem como coragem, persistência, determinação, audácia, valentia. Podemos sentir essas mesmas emoções, em níveis diversos de intensidade, de conformidade com nosso grau de evolução, conceituando esse ímpeto com nomenclaturas diversificadas.
A etimologia da palavra ―emoção‖ significa ―movimento para fora‘‘ e pode ser conceituada como sendo ‗‗movimento que sobe ou emerge em face de um possível estado de prazer ou dor‖.
Emoções de ―construção‖, assim denominadas a simpatia e o afeto, aparecem com a ―antecipação do prazer‖ já as emoções de ―destruição‖, também conhecidas como raiva ou irritação, surgem com a ―antecipação da dor‖.
Destruição e construção, isto é, raiva e prazer, são os grandes impulsos de onde derivam todos os demais. Os instintos de construção e destruição são as fontes primitivas às quais todo o processo da vida está ligado e, por certo, o seu controle e direcionamento darão um melhor ou pior curso em nossa existência e em nosso crescimento pessoal.
Portanto, quando ao ser humano é negado o direito de expressar sua raiva ou prazer, castrado nos seus primeiros anos de vida, torna-se uma criança indefesa, com tendência a ter uma personalidade tímida, medrosa e passiva. Já as ―tolerâncias ilimitadas‖ dos pais nessas áreas induzirão o menor a se confundir com o uso de seus impulsos de agressividade e afeto, podendo atingir igualmente, em seu estado adulto, comportamentos apáticos e demonstrar uma enorme falta de iniciativa, infantilização ou superlativa dependência do lar.
Grande parte dos professores, tios, pais e avós mantêm uma forma de visão preconceituosa e obstinada sobre a ―raiva‖, soterrando os instintos inatos da criança, castigando-a e vendo-a como criatura má e imperfeita, a qual atribuem atitudes reprováveis.
Por acreditarem que tais energias emocionais sejam completamente condenáveis e inadmissíveis, é que forçam os pequenos a ser, a qualquer preço, ―adaptados‖ e ―bem-comportados‖, a maneira deles. Isso irá gerar mais adiante posturas de isolamento e distanciamento dos adultos, por lhes ter sido negado o exercício de aprender a comandar suas mais importantes e primitivas emoções.
Na contenção da raiva no adulto, notamos o escoamento do instinto para outros órgãos do corpo físico, surgindo assim a somatização com o aparecimento neles dos primeiros sinais de doença, pois para lá que a energia reprimida se transferiu e se localizou.
Em outras situações, as manifestações do descontrole dessas energias geram crises de fúria, predisposições ao suicídio, apatias, acerbações sexuais, paralisias histéricas, sentimentos de culpa, fobias e outros tantos transtornos espirituais e
mentais.
Todas as vezes que somos incomodados ou defrontados com agressores, o impulso de raiva vai surgir. Ele é automático, é nosso ―estado de alerta‖, que nos vigia e que nos defende de tudo aquilo que pode nos comprometer ou destruir.
Nas criaturas mais amadurecidas, contudo, os impulsos instintivos moldaram-se à sua mentalidade superior, e elas passaram a controlá-los, canalizando-os de forma mais adequada e coerente. Esses dois impulsos fundamentais, o prazer e a raiva, nesses mesmos indivíduos foram depurados em seus estados primitivos - atividades eróticas e violentas - e transformados nas atividades das áreas afetiva e de iniciativa com determinação.
Essencialmente, porém, é preciso dizer que o ato de transformação do impulso de destruição não requer a ―anulação‖ ou ―extinção‖ dele em nossa intimidade , e sim o aprendizado de transmutá-lo, observando o que diz literalmente a palavra ―transformação‖, oriunda do latim: ―trans‖ quer dizer ―através de‖; ―forma‖, o modo pelo qual uma coisa existe ou se manifesta; e ―actio‖, ―ação‖. Entendemos por fim que, ―através de novas ações, mudaremos as formas pelas quais a raiva se manifesta‖, sem, todavia, aniquilá-las ou exterminá-las.
Com essa visão, a proposta salutar de canalizar e sublimar a agressividade é promover-nos profissionalmente, criando atividades educativas, usando práticas do esporte e outras tantas realizações. Todos aqueles que se dedicam às atividades nas áreas da criatividade, como poetas, pintores, oradores, escultores, artesãos, escritores, compositores e outros, fazem parte das criaturas que direcionam seus impulsos de agressividade para as artes em geral, sublimando-os.
Por sua vez, os que se exercitam fisicamente constituem exemplos clássicos daqueles que escoam naturalmente para o esporte sua energia de raiva. Outros tantos a transformam, redirecionando-a para as atividades junto aos carentes, nas obras e instituições de promoção e assistência social.
Quando as crianças insistirem em cortar, destruir, quebrar, arrancar, esmagar, torcer, bater ou amassar, estão apenas manuseando suas emoções emergentes de raiva ou seus impulsos agressivos, para que saibam usá-los no futuro com controle e conveniência. Em vez de censurá-los e criticá-los, devemos ofere-
cer-lhes um ―material adequado‖, para que essas manifestações possam ocorrer plenamente, sem dissabores ou demais prejuízos.
Desse modo, ―amar os inimigos não é, pois, ter para com eles uma afeição que não está na Natureza‖.41 Nossas emoções são energias que obedecem às leis naturais da vida, são previstas nos estatutos da ―Lei de destruição‖ e da ―Lei de conservação‖, e agem mecanicamente, pois são disparadas ao detectarmos nossos adversários.
Não obstante, ―o contato de um inimigo faz bater o coração de maneira bem diferente do de um amigo‖,42 quer dizer, a emoção energética da raiva ativa a glândula supra-renal, que libera a adrenalina no sangue. O coração acelera, a pressão arterial sobe, a respiração se intensifica, os músculos se contraem; daí sentirmos essa sensação estranha e incômoda. Em síntese, ―amar‖ os inimigos ou adversários, na interpretação do ensino de Jesus Cristo, não é nutrir por eles ódio ou qualquer propósito de vingança, nem mesmo desejar-lhes mal algum. Acima de tudo, o Mestre queria dizer que nossas emoções inatas de raiva, em nosso atual contexto evolutivo, não querem, em verdade, destruir nada do que está ―fora de nós‖, como se fazia nos primórdios da evolução. Ao contrário, elas querem nos defender, destruindo conceitos, atitudes e pensamentos ―dentro de nós‖, os quais nos tornam suscetíveis e vulneráveis ao mundo e, conseqüen-temente, nos fazem ser atacados, machucados e ofendidos.

Todos são caminhos
Capítulo 18, item 5
“... Por que essa porta tão estreita, que é dada ao menor número transpor, se a sorte da alma está lixada para sempre depois da morte? É assim que, com a unicidade da existência, se está incessantemente em contradição consigo mesmo e com a justiça de Deus. Com a anterioridade da alma e a pluralidade dos mundos, o horizonte se amplia...”
(Capítulo 18, item 5.)
Também os caminhos inadequados que tomamos ao longo da vida são parte essencial de nossa educação. A cada tropeço é preciso aprender, levantar novamente e retornar à marcha.
Tudo o que sabemos hoje aprendemos com os acertos e erros do passado, e cada vez que desistimos de alguma coisa por medo de errar estamos nos privando da possibilidade de evoluir e viver.
A estrada por onde transitamos hoje é nossa via de crescimento espiritual e nos levará a entender melhor a vida, no contato com as múltiplas situações que contribuirão com o nosso potencial de progresso.
Devemos, no entanto, indagar de nós mesmos: ―Será este realmente meu melhor caminho?‖
―Porventura é correta a senda por onde transito?‖
É justa a observação e têm propósito nossas dúvidas; por isso, raciocinemos juntos:
Se Deus, perfeição suprema, nos criou com a probabilidade do engano, modelando-nos de tal forma que pudéssemos encontrar um dia a perfeição, é porque contava com nossos encontros e desencontros na jornada existencial.
Se nos gerou falíveis, não poderá exigir-nos comportamentos sempre irrepreensíveis, pois conhece nossas potencialidades e limites. Se criaturas como nós aceitamos as falhas dos outros, por que o Criador em sua infinita compreensão não nos aceitaria como somos? Pessoas não condenam seus bebês por eles não saber comer, falar e andar corretamente; por que espíritos ainda imaturos pagariam por atos e pensamentos que ainda não aprenderam a usar convenientemente, pela sua própria falta de madureza espiritual? O que pensar da Bondade Divina, que permite que as almas escolham seu roteiro, de acordo com o livre-arbítrio, e depois cobrasse aquilo que elas ainda não adquiriram? A Divindade é ―Puro Amor‖ e sabe muito bem de nossos mananciais espirituais, mentais, psicológicos e físicos, ou seja, de nossa idade evolutiva, pois habita em nosso interior e sempre suaviza nossos caminhos. Na justa sucessão de espaço e tempo, condizente com o nosso grau de visão espiritual, recebemos, por meio do fluxo divino, a onipresença, a onisciência e a onipotência do Criador em forma de ―senso de rumo certo‖, para trilharmos as rotas necessárias à ampliação de nossos sentimentos e conhecimentos. Diz a máxima:
―Não se colhem figos dos espinheiros‖;39 ora, como impor metas sem levar em conta a capacidade de escolha e de discernimento dos indivíduos? Efetivamente, nosso caminho é o melhor que podíamos escolher, porque em verdade optamos por ele, na época, segundo nosso nível de compreensão e de adiantamento. Se, porém, achamos hoje que ele não é o mais adequado, não nos culpemos; simplesmente mudemos de direção, selecionando novas veredas.
A trilha que denominamos ―errada‖ é aquela que nos possibilitou aprendizagem e o sentido do nosso ―melhor‖, pois sem o erro provavelmente não aprenderíamos com segurança a lição. Nós mesmos é que nos provamos; a cada passo experimentamos situações e pessoas, e delas retiramos vantagens e am-pliamos nosso modo de ver e sentir, a fim de crescermos naturalmente,
39 Lucas 6:44.
desenvolvendo nossa consciência.
Ninguém nos condena, nós é que cremos no castigo e por isso nos autopunimos, provocando padecimento com nossos gestos mentais.
Aceitemos sem condenação todas as sendas que percorremos. Todas são válidas se lhes aproveitarmos os elementos educativos, porque, assim somadas, nos darão sabedoria para outras caminhadas mais felizes.
Mesmo aquelas trilhas que anotamos como caminhos do mal, não são excursões negativas de perdição perante a vida, mas somente equivocadas opções do nosso livre-arbítrio, que não deixam de ser reeducativas e compensatórias a longo prazo.
Cada um percorre a estrada certa no momento exato, de conformidade com seu estado de evolução. Tudo está certo, porque todos estamos nas mãos de Deus.

O Espiritismo
Capítulo 1, item 5
“O Espiritismo é a nova ciência que vem revelar aos homens, por provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual, e suas relações com o mundo corporal, ele no-lo mostra, não mais como uma coisa sobrenatural, mas, ao contrário, como uma das forças vivas e incessantemente ativas da Natureza...”
(Capítulo 1, item 5.)
Uma visão sobre a Vida Maior renasce no século 19 na França: verdadeiro ato heróico fez o notável professor Allan Kardec, ao trazer toda uma idéia sobre espiritualidade para o Velho Mundo, até então adormecido pelas doutrinas materialistas e lucrativas vigentes na época.
O Estado e as classes sociais dominadoras transformavam os interesses de alguns em necessidades de todos. Para assegurar privilégios e poder, usavam dos instrumentos possíveis, desde as religiões, meios de comunicação e até a escola, como difusão de crenças e valores que lhes garantissem a ordem social e seus ideais como verdades de todos.
A religião como instituição sagrada se convertia em instrumento e, ao mesmo tempo, vítima do processo.
Os sacerdotes eram os donos das almas há séculos, e os destinos das criaturas estavam circunscritos às decisões eclesiásticas, que detinham o cetro ―divino‖ da absolvição ou da condenação.
Acreditava-se que as consciências não tinham estrutura de fato para fazer avaliações sobre o certo e o errado; por isso eram manipuladas por crenças autoritárias e arbitrárias, ditadas por homens intransigentes e fanáticos.
A missão imposta às escolas e às universidades era a de contribuir para a difusão e consolidação de ideologias criadas por esses grupos detentores da decisão, formando consciências sub-missas e servis, tementes a Deus, ao Rei e ao Estado e impondo-se com argumentos incompatíveis com a ordem divina, para atender a necessidades camufladas pelos herdeiros privilegiados e arrogantes de uma sociedade absolutista.
O eminente educador Rivail, homem de uma religiosidade missionária, traz à França, em meio ao positivismo de Augusto Comte, a idéia imortalista do Espiritismo.
Apesar de a crença na reencarnação ter sido banida do movimento religioso pelos concílios ecumênicos da Antigüidade, Kardec a apresenta ao mundo sob a supervisão dos Espíritos Superiores, estabelecendo assim novos rumos à sociedade, presa a conceitos de superioridade de nascimento e graças especiais entre os escolhidos.
Os preconceitos de classe social, cor e sexo caem por terra, já que pela roda das encarnações sucessivas poderemos habitar os mais diferentes corpos e pertencer às mais diversas castas da sociedade; a família patriarcal e possessiva já não tem razão de ser e a servidão da mulher toma conotação de crença despótica e machista.
Faz-se então uma verdadeira revolução nos costumes medievais que ainda vigoravam na época, a qual encontra consideração por parte de alguns, pela lógica e discernimento da vida como um todo, e oposição sistemática por parte de outros, pelo grau de imaturidade psicológica deles e por mexer em valores íntimos de convencionalismo e superstição arraigados em suas consciências através dos tempos.
O Espiritismo fez renascer nas almas a compreensão da verdadeira natureza do homem e a percepção de que seu destino é fruto de suas escolhas.
Imortalidade da alma e vidas sucessivas são algumas das bases sólidas que abalaram os alicerces de toda uma coletividade estruturada numa visão distorcida da verdade universal. A nova ideologia estabelece por crença indispensável a fraternidade, como concepção de vida real a ser incorporada pelos indivíduos e
grupos à medida que suas necessidades espirituais forem tomando aspectos de ascensão e conhecimento.
A Doutrina Espírita é um método extraordinário de educação. A sobrevivência após a morte, a preexistência e a evolução das almas ainda são quase que totalmente desconhecidas pelos povos com ares de hegemonia. Porém, ao tempo certo, delas tomarão consciência, conforme afirma o apóstolo Paulo, quando escreve às igrejas da Galácia: ―... porque a seu tempo tudo ceifaremos...‖38
38 Gálatas

Carma e parentela

Capítulo 4, item 19
“A união e a afeição que existem entre os parentes são indício da simpatia anterior que os aproximou: também se diz, falando de uma pessoa cujo caráter; gostos e inclinações não têm nenhuma semelhança com os de seus parentes, que ela não é da família...”
(Capítulo 4, item 19.)

Quase sempre afirmamos que a antipatia a certos membros de nossa parentela é decorrente de antigas aversões, oriundas do pretérito distante, quando ocorrências negativas ficaram mal resolvidas em nossa atmosfera cármica.
Dessa forma, justificamos aversões e incompatibilidades de gênio, transformando o ambiente familiar em verdadeiro campo de batalha, onde todos têm razão e, ao mesmo tempo, todos se dizem vítimas impotentes do destino.
Importante lembrar que, se fomos reunidos aqui e agora, é porque este é o melhor tempo para solucionarmos comportamentos inconvenientes, posturas de vida intransigentes e para promovermos nossa transformação interior, fatores imprescindíveis para o crescimento da alma.
Não se auto-responsabilizar por feitos e atitudes no presente, inocentando-se e lançando desculpas pelos desatinos do passado, é assumir a condição de injustiçado, ou mesmo, de vítima. E como afirmar que a Divina Providência cometeu para com tua existência uma falta, fazendo-te renascer em ambiente não correspondente ao teu desenvolvimento espiritual, o que logicamente é um enorme absurdo.
Não são situações de vidas passadas que te complicam os relacionamentos afetivos, e sim a continuidade dos velhos modos de pensar, das crenças incoerentes
e da permanência em doentios pontos de vista de onipotência.
Adultos dominadores desenvolvem expectativas em relação ao círculo em que vivem, alterando as escolhas pessoais dos familiares. Se estes não são acostumados a pensar por si, permitem facilmente que lhes alterem as trilhas que tinham delineado e definido como metas particulares. Fatalmente, esses mesmos indivíduos um dia se revoltarão contra as atitudes de dominância e rejeitarão ser manipulados de novo, desenvolvendo assim sérios atritos no lar.
Em muitas ocasiões, por atitudes autoritárias, a profissão que é exercida difere de modo frontal daquela que a criatura escolheu. Em vista disso, ela vive constantemente contrariada, por ver frustrado o seu projeto interno, e se revolta não só contra quem desencadeou a intromissão em sua trilha de vida, mas também contra o mundo, a sociedade e contra si mesmo, por não ter lutado por tudo aquilo que desejava.
Parentes inseguros superprotegem os seus escolhidos, tornando-os impotentes em áreas em que já poderiam ser independentes. Por obrigá-los a compartilhar os seus mesmos pontos de vista, evidenciam um enorme desrespeito ao outro, demonstrando com isso que, talvez, nem eles mesmos saibam o que querem realmente da vida.
Assim, com freqüência, filhos se defrontam com pais e irmãos, lutando contra gestos de arrogância. Querem ser eles mesmos, desbravar suas próprias metas e caminhos, embora, às vezes, se anulem com certo medo de desagradar-lhes, pelo suporte e manutenção de vida que ainda recebem deles, porque, em verdade, muitos ainda não conseguiram sustentar-se material e afetivamente.
Auto-responsabilidade é uma dádiva que nos confere o poder de criar mudanças, pois geralmente preferimos nos desculpar, jogando a responsabilidade de nossos atos nos ombros alheios, ou nas vidas passadas, tornando-nos vítimas e eximindo-nos de contribuir com nossa parcela para eliminar melindres, ressentimentos e antipatias no seio do próprio lar.
Em razão disso tudo, para que tenhamos relacionamentos felizes no futuro, tomemos nota do lema: ―O ontem já passou. Agora é a melhor ocasião para teu crescimento e renovação‖.

Viver com naturalidade

Capítulo 17, item 10... Vivei com os homens de vossa época, como devem viver os homens...” “... Fostes chamados a entrar em contato com espíritos de natureza diferente, de caracteres opostos; não choqueis nenhum daqueles com os quais vos encontrardes. Sede alegres, sede felizes, mas da alegria que dá uma boa consciência...” (Capítulo 17, item 10.)

Viver ―felizes segundo as necessidades da Humanidade‖ 32 é viver com naturalidade, ou seja, participar efetivamente na sociedade usando nosso jeito natural de ser. Todos nós fomos abençoados com determinadas vocações, e o mundo em que vivemos precisa de nossa cooperação individual, para que possamos, ao mesmo tempo, desenvolver nossas faculdades inatas na prática social e aumentar nossa parcela de contribuição junto à comunidade em que vivemos, no aperfeiçoamento da humanidade. Possuímos talentos que precisam ser exercitados para que possam florescer, mas poucos de nós damos o real valor a essa tarefa. Esses mesmos talentos estão esperando nosso empenho de ―se dar força‖, a fim de colocá-los em plena ação no intercâmbio das relações com as pessoas e com as coisas.
Não podemos então olvidar que viver no mundo é ―entrar em contato com espíritos de natureza diferente, de caracteres opostos‖,33 reconhecendo que cada um dá o que tem, vive do jeito que pode, percebe da maneira que vê, admitindo
32 O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 17º, item 10. 33 O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 17º, item 10.
que, por se tratar de tendências, talentos e vocações, todos nós temos a peculiar necessidade de ―ser como somos‖ e ―estar onde quisermos‖ na vida social. Talentos são impulsos naturais da alma adquiridos pela repetição de fatos semelhantes, através das vidas sucessivas. Vocação é a ―voz que chama‖, palavra oriunda do latim ―vocatus‖, que quer dizer chamado ou convocação. Pelo fato de a Natureza ser uma verdadeira ―vitrina‖ de biodiversidade ou multiplicidade de seres, é que cada indivíduo tem suas próprias ferramentas, úteis para laborar na lida social. Todas as árvores são árvores, mas o pessegueiro não tem as mesmas peculiaridades do limoeiro, nem o abacateiro as da mangueira. Por isso, cada pessoa também se exprime em níveis diversos segundo as múltiplas formas com que a Sabedoria Divina nos plasmou na criação universal.
Assim, todos somos convocados a ―agir no social‖, não com ―um aspecto severo e lúgubre, repelindo os prazeres que as condições humanas permitem‖,34 mas felizes, fazendo uso de nossos potenciais e faculdades prazerosamente. Jesus de Nazaré vivia, à sua época, uma vida mística e distante da sociedade?
O Cristo de Deus se integrava intensamente no social, ―participando das festas de casamento‖,35 ―do relacionamento fraterno, amando intensamente os amigos‖36 ―Sem preconceito algum fazia visitas e tomava refeições em companhia de variadas criaturas‖,37 percorrendo cidades, campos e estradas sempre acompanhado dos amigos queridos e das multidões que O cercavam. Em vista disso, devemos entender que as leis do Criador deram às criaturas inclinações e aptidões íntimas e originais, para que elas pudessem conviver entre si, oferecendo a cada uma participação também original na vida comunitária de maneira ―sui generis‖.
Devemos, sim, viver no mundo com a consciência de que somos espíritos eternos em crescimento e progresso, e de que o nosso ânimo de viver‖ em sociedade depende de colocarmos em prática as nossas verdadeiras capacidades e
34 O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 17º, item 10. 35 João 2:1 e 2. 36 João 15:13. 37 Mateus 9:10.
vocações da alma.
Lembremo-nos, contudo, de que a palavra ―ânimo‖ quer dizer ―alma‖, do latim ―animus‖, e de que devemos, cada um de nós, ―viver com alma‖ no círculo social do mundo.

Imposições
Capítulo 8, item 8
“... Não é o que entra na boca que enlameia o homem, mas o que sai da boca do homem. O que sai da boca parte do coração, e é o que torna o homem impuro...”
“... mas comer sem ter lavado as mãos não é o que torna um homem impuro...”
(Capítulo 8, item 8.)
Os costumes de uma época refletem de tal maneira sobre os indivíduos que eles passam a vê-los primeiramente como ―normas sociais‖, depois como ―valores morais‖, culminando finalmente como ―ordens divinas‖.
A liberdade de pensar e agir é um dos direitos mais sagrados do homem e, portanto, asas poderosas para o seu adiantamento espiritual. Liberdade da qual ele nunca deverá abrir mão, em hipótese alguma. Pessoas amarradas por normas opressoras mal podem respirar o ar de suas próprias idéias e mal podem se locomover para o crescimento interior, porque aspirações são anuladas, gestos são vigiados, anseios são negados constantemente.
―Não é o que entra na boca que enlameia o homem, mas o que sai da boca do homem.‖ - adverte Jesus de Nazaré às criaturas de seu tempo, que se apegaram às práticas e regulamentos preestabelecidos pelos homens e dos quais eles mesmos, por ser pessoas ortodoxas e intolerantes, faziam ―casos de consciência.
Os judeus, por confundirem freqüentemente leis divinas com leis civis, atribuíam ao costume de lavar as mãos antes das refeições, à circuncisão, às questões do sábado e a outras tantas situações sociais, motivos geradores de polêmicas religiosas, porque se prestavam mais às práticas exteriores do que aos verdadeiros anseios de renovação das almas.
As pessoas de bem, no início do século, declaravam que os senhores dignos e respeitáveis deveriam somente sair à rua de chapéu, paletó e gravata, bem como, as honradas senhoras, de forma alguma, andariam desacompanhadas da família, devendo vestir também toda uma ―toilette‖ impecável com imprescindíveis luvas, chapéus, leques e lenços perfumados, como elementos de ―bem se compor‖ das elites da época.
No tempo de Jesus não poderia ser diferente. Ele, vivendo entre criaturas radicais, fanáticas pelas crenças religiosas do passado, que cultuavam ―normas‖ e ―regras‖ dadas pelos antigos profetas, haveria de não ser compreendido por sua postura de relacionamento livre de preconceitos e por ensinar sempre novos aspectos de ver e sentir a vida.
O Mestre tinha ―senso de alma‖, ou seja, bom senso, porque usava sua sensibilidade e lógica para orientar a si mesmo e aos outros que lhe escutavam as lições de sabedoria, pois era contrário à superstição e à hipocrisia dos que ―honravam com os lábios, mas não com o coração‖.
O que é moral ou imoral é relativo, em se tratando de costumes e regras sociais, porque em cada tempo, em cada era e em cada povo mudam-se as leis sociais, mudam-se os valores, muda-se a moral social.
No entanto, a moral à qual se reportava o Cristo de Deus não era aquela estabelecida pelos padrões imperfeitos do conhecimento humano, nem a que faz comparações do que é adequado ou inadequado, nem a que faz estatística e rotula coisas e pessoas. Entende-se que nossa alma tem sua própria história de vida, que somos totalmente individualizados por termos sido expostos a diversos estímulos e experiências diferentes ao longo da nossa jornada, na multiplicidade das vidas, e, portanto, devemos ser vistos de conformidade com a nossa vida interior.
Ele sabia que grande parte do nosso sofrimento ou conflitos internos provinha do fato de nos considerarmos errados, por não estarmos dentro dos moldes convencionados pela sociedade em que vivemos.
Matar será sempre imoral perante as Leis Divinas, apesar de que, dentro dos padrões da ―moral social‖, matar na guerra é motivo de condecorações com medalhas e honrarias.
Dessa forma, analisemos, raciocinando com discernimento:
a que moral nós estamos nos prendendo? A das leis passageiras da elite de uma época, ou a das leis eternas e verdadeiras de todos os tempos?
Pesquisemos atentamente os alicerces de nossa conduta moral. Eles podem ser os frutos de nossa dor, por permanecermos presos ao conflito de ―lavarmos ou não as mãos‖; ou podem ser as raízes de nossa felicidade, por seguirmos Jesus escutando a voz do nosso coração.

Belo planeta Terra
Capítulo 3, item 7
“Ora, da mesma forma que, numa cidade, toda a população não está nos hospitais ou nas prisões, toda a Humanidade não está sobre a Terra; como se sai do hospital quando se está curado, e da prisão quando se cumpre o tempo, o homem deixa a Terra por mundos mais felizes, quando está curado das suas enfermidades morais.”
(Capítulo 3, item 7.)
Realmente, a Terra é um minúsculo grão de areia no imenso cosmo universal. Mundos incontáveis, estrelas de maior grandeza que o Sol, circulam pelos complexos interplanetários, e constelações inúmeras se encaixam em galáxias de milhares de anos-luz.
Assegura a ciência que a Via-Láctea possui mais de 200 milhões de estrelas espalhadas harmonicamente entre suas nebulosas, e que sua forma espiralada tem uma extensão aproximada de 100 mil anos-luz para ser percorrida de uma ponta a outra.
Vivemos num turbilhão de galáxias e galáxias, somos viajores do espaço, habitantes do Universo em busca da perfeição, e o nosso destino é a felicidade plena.
Nosso planeta é a residência que nos acolhe atualmente; portanto, amá-lo e protegê-lo é o nosso lema.
A Terra, de uma beleza sem igual, é para nós outros, encarnados e desencarnados, domiciliados temporariamente neste orbe azulado, o nosso ninho de aconchego e progresso espiritual. Nossa concepção de beleza é ajustada às condições de evolução do planeta. O que vemos e sentimos está sintonizado com
nosso modelo de ―belo interior‖ e, por conseguinte, vislumbramos fora o que so-mos por dentro.
―A boca fala do que está cheio o coração‖,30 disse Jesus, e nós completamos: os olhos vêem conforme nossa atmosfera interior. É por isso que alguns afirmam: este planeta é uma prisão; outros dizem porém: não, é um hospital; mais além outros tantos asseguram: é um belo jardim de paz. Tua casa psíquica determina tua existência, tua observação focaliza pântanos pestilentos ou fontes cristalinas, serpentes ou pássaros e, assim, diriges teu modo característico de ver, conforme teu modelo interior, materializando e evidenciando as coisas ou as pessoas fora de ti mesmo. O mundo moderno coloca o pensamento ecológico como um dos meios para que os homens possam sobreviver no planeta, inter-relacionando perfeitamente a flora e a fauna existentes em nosso meio ambiente. Tudo está integrado em tudo: as águas necessitam das plantas e vice-versa; os animais, das florestas; e os homens fazem parte desse elo ecológico, não como parte imprescindível, mas como parte integradora.
Allan Kardec, um dos precursores do pensamento ecológico, desde 1868, refere-se à Providência Divina como a atenção de Deus para com tudo e todos, definindo-a como a solicitude que ―está por toda parte, tudo vê e a tudo preside, mesmo as menores coisas; é nisso que consiste a ação providencial‖.31 Transcorrido mais de um século, a humanidade continua estudando e observando essa ―atenção celestial‖, em que cada ser vivo do planeta se interconecta, sendo todos essencialmente necessários para a manutenção de todos, e aprendendo a ver a vida em suas harmoniosas relações de ―auto-ajuda‖, visto que submetida sempre a uma ―Ação Superior e Inteligente‖, que a todos provê. Paralelamente, e em razão disso, se os rios e as florestas morrerem, os homens também perecerão de modo parcial.
Todos nós somos Natureza, somos vida em abundância. Também tu és Natureza, e as várias moradas às quais se referia Jesus são hoje, pelo Espiritismo,
30 Lucas 6:45. 31 A Gênese - Allan Kardec, Capítulo 2º, item 20.
levadas a outras tantas interpretações de maior compreensão e discernimento quanto ao modo de examinar e analisar a vida no planeta.
Ama a Terra! Ama a Natureza! Nosso mundo, nossa casa!

Verniz social
Capítulo 9, item 6
“... A benevolência para com os semelhantes, fruto do amor ao próximo, produz a
afabilidade e a doçura, que lhe são a manifestação. Entretanto, não é preciso fiar-se sempre nas
aparências; a educação e o hábito do mundo podem dar o verniz dessas qualidades...”
(Capítulo 9, item 6.)
Nem sempre conseguimos mascarar por muito tempo nossas verdadeiras
intenções e planos matreiros. Não dá para enganar as pessoas por tempo
indeterminado. Após vestirmos as roupagens da afabilidade e doçura para encobrir
rudeza e desrespeito, vem a realidade dura e cruel que desnuda aqueles lobos que
vestiram a ―pele de ovelha‖.
Realmente, é no lar que descortinamos quem somos. É no lar que escorre o
verniz da bonança e da caridade que passamos sobre a face e que nos revela tal
como somos aos nossos familiares.
Trazemos gestos meigos e voz doce para desempenhar tarefas na vida pública,
no contato com chefes de serviço e amigos, com companheiros de ideal e recém-
conhecidos, mas também trazemos ―pedras nas mãos‖ ou punhos cerrados no trato
com aqueles com quem desfrutamos familiaridade.
Por querer aparentar alguém que não somos, ou impressionar criaturas a fim
de conquistá-las por interesses imediatistas, é que incorporamos personagens de
ficção no palco da vida. Ou seja, é como se cumpríssemos um ―script‖ numa
representação teatral. Nada mais do que isso.
Em várias ocasiões, integramos em nós mesmos não só a sociedade
visivelmente ―externa‖, com suas construções, praças, casas e cidades, mas também a sociedade em seu contexto ―invisível‖, que, na realidade, se compõe de regras e
ordens sociais, bem como dos modelos de instituições criadas arbitrariamente.
Captamos, através de nossos sentidos espirituais, todos os tipos de energia oriunda
da população. Através de nossos radares sensíveis e intuitivos, passamos a
representar de forma inconsciente e automática um procedimento dissimulado sob
a ação dessas forças poderosas.
Maquilagens impecáveis, jóias reluzentes, perfumes caros, roupas da moda e
óculos charmosos fazem parte do nosso arsenal de guerra para ludibriar e
corromper, para avançar sinais e para comprar consciências. Não nos referimos
aqui à alegria de estar bem-trajado e asseado, mas à maquiavélica intenção dos
―túmulos caiados‖.
Por não nos conhecermos em profundidade é que temos medo de nos
mostrar como realmente somos.
Num fenômeno psicológico interessante, denominado ―introjeção‖, que é
um mecanismo de defesa por meio do qual atribuímos a nós as qualidades dos
outros, fazemos o papel do artista famoso, dos modelos de beleza, das personagens
políticas e religiosas, das figuras em destaque, dos parentes importantes e in-
divíduos de sucesso, e por muito tempo alimentamos a ilusão de que somos eles,
vivenciando tudo isso num processo inconsciente.
Desse modo, nós nos portamos, vestimos, gesticulamos, escrevemos e
damos nossa opinião como se fôssemos eles realmente, representando, porém, uma
farsa psicológica.
Ter duas ou mais faces resulta gradativamente em uma psicose da vida
mental, porque, de tanto representar, um dia perdemos a consciência de quem
somos e do que queremos na vida.
Quanto mais notarmos os estímulos externos, influências culturais, físicas,
espirituais e sociais em nós mesmos, nossas possibilidades de relacionamento com
outras pessoas serão cada vez mais autênticas e sinceras. A comunicação efetiva de
criatura para criatura acontecerá se não levarmos em consideração sexo, idade e
nível socioeconômico. Ela se efetivará ainda mais seguramente sempre que
abandonarmos por completo toda e qualquer obediência neurótica aos modelos aprendidos e preestabelecidos.
Abandonemos o ―verniz social‖ que nos impusemos no transcorrer da vida.
Sejamos, pois, autênticos. Descubramos nossas reais potencialidades interiores, que
herdamos da Divina Paternidade. Desenvolvendo-as, agiremos com maior naturali-
dade e, conseqüentemente, estaremos em paz conosco e com o mundo.

O “cisco” e a “trave”
“Por que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, vós que não vedes uma trave no vosso
olho? Ou como dizeis ao vosso irmão: Deixai-me tirar um argueiro do vosso olho, vós que tendes
uma trave no vosso? Hipócritas, tirai primeiramente a trave do vosso olho, e então vereis como
podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão.”
(Capítulo 10, item 9.)
Os indivíduos em plenitude não negam suas emoções; permitem que elas
venham à tona, e, como elas estão sob seu controle, reconhecem o que estão lhes
mostrando sobre seus sentimentos, suas inclinações e suas relações com as pessoas.
As emoções devem ser ―integradas‖, ou seja, primeiramente, devemos nos
permitir ―senti-las‖; logo após, devemos julgá-las e ―pensar‖ sobre nossas
necessidades ou desejos; e, a partir disso, ―agir‖ com nosso livre-arbítrio,
executando ou não, conforme nossa vontade achar conveniente.
O mecanismo de nos ―consentir‖, de ―raciocinar‖ e de ―integrar‖ emoções
determinará nossos êxitos ou nossas derrotas nas estradas de nossa existência.
Emoções são muito importantes. Através delas é que nos individualizamos e
nos diferenciamos uns dos outros. Ninguém sente, pois, exatamente igual, isto é,
com a mesma potência e intensidade, seja no entusiasmo em uma situação
prazerosa, seja na frustração ao observar uma meta perdida.
Podemos pensar igual aos outros, mas para um mesmo pensamento criaturas
diversas têm múltiplas reações emocionais.
Assim considerando, emoções não são certas ou erradas, boas ou impróprias,
mas apenas energias que dependem do direcionamento que dermos a elas. Reconhecê-las ou admiti-las não significa, de modo algum, que vamos sempre agir
de acordo com elas.
Quando negadas ou reprimidas, não desaparecem como por encanto; ao
contrário, sendo energias, elas se alojarão em determinados órgãos e
congestionarão as entranhas mais íntimas da estrutura psicossomática dos
indivíduos.
Ao abafarmos as emoções, podemos gerar uma grande variedade de doenças
autodestrutivas. Abafá-las pode também nos levar a reações muito exacerbadas ou
à completa ausência de reações, a apatia.
Portanto, quando tomamos amplo contato com nosso lado emocional,
começamos a reconhecer vestígios a respeito de nós mesmos, que nos
proporcionarão autodescoberta, auto-preservação, segurança íntima e crescimento
pessoal.
Ora, se o Poder Divino, através de sua criação, pelo próprio mecanismo da
Natureza, delegou as emoções a todos os seres vivos, conforme seu grau de
evolução, não poderemos simplesmente negá-las, como se não servissem para nada.
Tristeza, alegria, raiva ou medo são emoções básicas e deveremos usá-las como
bússolas que nos nortearão os caminhos da vida.
Elas estão conectadas a nosso sistema de pensamento cognitivo‖ -
atividades psicológicas superiores, tais como: a percepção, a intuição, a memória, a
linguagem, a atenção e os demais processos intelectuais e espirituais.
Ao ignorarmos nossas reações emocionais, não investigando sua origem em
nós mesmos, teremos sempre a tendência de projetá-las nos outros. Além do que,
seremos seres psicologicamente claudicantes, por não integrarmos nossas emoções
aos nossos cinco sentidos, que nos facilitam a análise das pessoas e de nós mesmos.
A tendência que certos indivíduos têm de atribuir falhas e erros a outras
pessoas ou coisas, não enxergando e não admitindo como sendo suas, denomina-se
―projeção‖.
Às vezes, tentamos fazer nossas emoções desaparecer, porque as tememos.
Reconhecer o que realmente sentimos exigiria ação, mudança e decisão de nossa
parte, e muitas vezes seríamos colocados face a face com verdades inadmissíveis e inconcebíveis por nós mesmos; e assim, tentamos projetá-las como sendo emoções
não nossas, mas dos outros.
―Não sinta isso, é feio‖ - essa é uma das muitas velhas mensagens que
ecoam em nossa mente desde a mais tenra infância; com o passar do tempo,
julgamos não mais senti-las, porque as escondemos da recriminação dos adultos.
Em razão disso, certos indivíduos condenam com veemência os ―ciscos‖
nos outros, pois vêem em tudo luxúria e perversão, desonestidade ou ambição. É
possível que esses mesmos indivíduos estejam reprimindo o reconhecimento de
que eles próprios trazem consigo emoções sexuais e perversidades mal resolvidas,
ou, em outros casos, emoções desmedidas de fama e de dinheiro projetadas sobre
todos os que são por eles denominados ambiciosos e desonestos.
Na indagação ―ou como dizeis ao vosso irmão: deixai-me tirar um argueiro
do vosso olho, vós que tendes uma trave no vosso?‖, Jesus reconhecia a
universalidade desse processo psicológico, ―a projeção‖, e, como sempre,
asseverava a necessidade da busca de si mesmo, para não transferirmos nossos
traços de personalidade desconhecidos às coisas, às situações e aos outros.
, a fim de
que pudéssemos enxergar o ―lado obscuro‖ de nossa personalidade. Ao tomarmos
esse contato imprescindível com nossas ―sombras‖, a consciência se torna mais
lúcida, crítica e responsável, descortinando amplos e novos horizontes para o seu
desenvolvimento e plenitude espiritual.
Finalizando, atentemos para a análise: ―as condutas alheias que mais nos
irritam são aquelas que não admitimos estar em nós mesmos‖ ―os outros nos
servem de espelho, para que realmente possamos nos reconhecer‖.

Vantagens do esquecimento
Capítulo 5, item 11
“... Se Deus julgou conveniente lançar um véu sobre o passado, é porque isso devia ser útil...”
“... Deus nos deu, para nosso adiantamento, justamente o que nos é necessário e pode nos
bastar. a voz da consciência e nossas tendências instintivas, e nos tira o que poderia nos
prejudicar...”
(Capítulo 5, item 11.)
Em certas criaturas é visível a rejeição que fazem para aceitar as coisas novas
que vão surgindo em sua trajetória vivencial. A Natureza em nós é força de
progresso, e os homens evoluem sempre, não porém ao mesmo tempo e da mesma
forma, mas naturalmente, obedecendo ao seu próprio ritmo.
O nível de saúde mental é medido a partir do grau de adaptação da criatura ao
fluxo das novas idéias que aparecem de tempos em tempos, como fatores de
progresso das almas.
No entanto, certas pessoas se orgulham ao proclamar-se conservadoras,
esquecendo-se de que o ―comodista‖, por medo ou estagnação, perde sua liberdade
por não querer correr o risco de sair do lugar-comum.
Estão sempre lembrando uma época de felicidade, suspirando por sonhos
antigos que não se realizaram, revivendo o passado, repisando as suas e as opiniões
erradas dos outros e justificando-se agarradas às lembranças de vidas passadas.
Vivem presas nos ―ecos do pretérito‖, sem produtividade, sem retirar benefício
algum da observação dos fatos, por não saber integrar passado e presente.
Se demonstrassem algum interesse para com uma só experiência nova, talvez
promovessem mudanças lucrativas em seus padrões mentais. Passam por diversas experiências, não aprendendo uma única lição sequer.
A cada etapa da existência, acumulamos valores intelectuais e emocionais
que nos diferenciam sensivelmente de como éramos há pouco tempo. Sempre nos
são dadas constantes oportunidades de modificação e melhores concepções de
vida, estimuladas pelas circunstâncias vivenciadas nas múltiplas experiências
reencarnatórias que tivemos.
Por que, então, não deixar o passado passar?
Ficamos retidos a idéias e conceitos que nos foram válidos em determinadas
épocas de nossa vida; atualmente, porém, é preciso renovação e libertação dos
ranços do pretérito em favor de um presente atuante e vantajoso.
Quando escutamos a formulação de idéias novas, tomamo-las por velhas
idéias ou pensamos que podem ser interpretadas ou explicadas com o auxílio dos
velhos conceitos. Estamos de tal maneira arraigados ao passado que deixamos de
crer que possam existir novas maneiras de ver e interpretar.
―Ninguém põe um remendo de pano novo numa roupa velha, porque tiraria
a consistência da roupa e o rasgão ficaria pior‖,
29
observou Jesus Cristo aos que,
diante dos novos ensinamentos dos quais Ele era portador, ainda permaneciam
enraizados aos costumes e práticas farisaicas, que impediam os impulsos de
amadurecimento das almas.
―Se Deus julgou conveniente lançar um véu sobre o passado, é porque isso
devia ser útil‖.
O momento presente é o ideal para o nosso progresso, e nós só podemos
―sentir o aqui e o agora‖, pois tentar sentir o ontem é ―ressentir‖; por
conseqüência, nem sempre são válidas e autênticas nossas emoções do ontem para
avaliação do nosso tempo presente.
Essencialmente, a voz da consciência e as nossas tendências instintivas são
os melhores meios de ação, conforme nos indica o texto em estudo.
Cada dia é uma nova oportunidade para nos desvencilharmos de velhos
conceitos, idéias fixas e reflexões obsoletas. Aproveitemos, portanto, a ―vantagem
do esquecimento‖, que nos concede a Divina Providência, para transformarmos nossa presente encarnação em fonte de novos suprimentos destinados a tornar
mais felizes as encarnações futuras.

Mateus 9:16.



Vínculos familiares
Capítulo 4, item 18
“... Afeição real de alma a alma, a única que sobrevive à destruição do corpo, porque os seres
que não se unem neste mundo senão pelos sentidos não têm nenhum motivo para se procurarem no
mundo dos Espíritos. Não há de duráveis senão as afeições espirituais...”
(Capítulo 4, item 18.)
A rigor, família é uma instituição social que compreende indivíduos ligados
entre si por laços consangüíneos.
A formação do grupo familiar tem como finalidade a educação, implicando,
porém, outros tantos fatores como amor, atenção, compreensão, coerência e,
sobretudo, respeito à individualidade de cada componente do instituto doméstico.
Com o Espiritismo, porém, esse conceito de família se alarga, porque os velhos
padrões patriarcais, impositivos e machistas do passado, cedem lugar a um clã
familiar de visão mais ampla de vivência coletiva, dentro das bases da reencarnação.
Por admitir que os laços da parentela são preexistentes à jornada atual, os
preconceitos de cor, de sangue, sociais e afetivos caem por terra, em face da
possibilidade de as almas retornarem ao mesmo domicílio, ocupando roupagens
físicas conforme as necessidades evolutivas.
As afeições reais do espírito sobrevivem à destruição do corpo e permanecem
indissolúveis e eternas, nutrindo-se cada vez mais de mútuas afinidades, enquanto
que as atrações materiais, cujo único objetivo são as ilusões passageiras e os
interesses do orgulho, extinguem-se com a ―causa que os fez nascer‖.
Assim, vemos famílias que adotam a ―eliminação quase total da vida
particular‖. A atenção é focalizada de forma exclusiva no grupo familiar, cujos integrantes vivem neuroticamente uns para os outros. Bloqueiam seus direitos à
própria vida, à liberdade de agir e de pensar e ao processo de desenvolvimento
espiritual, para se ocuparem de cuidados improdutivos e alienatórios entre si. Vi-
vem uns para os outros numa ―simbiose doentia‖.
Os elementos que vivem presos a esse relacionamento de permuta egoísta
afirmam para si mesmos: ―Se eu me sacrifico pelo outro, exijo que ele se dedique a
mim‖. Não se trata de caridade, e sim de compromissos impostos entre dois ou
mais indivíduos de juntos viverem, visando ao ―bem-estar familiar‖. Na verdade,
não estão exercitando o discernimento necessário para enxergar a autêntica
satisfação de cada um como pessoa.
Não nos referimos aqui ao companheirismo afetivo, tão reconfortante e vital
à família, mas a uma postura obrigatória pela qual indivíduos se vigiam e se
encarceram reciprocamente.
Encontramos também outras famílias que não se formaram por afeições
sinceras; fazem comparações e observam características de outras famílias que
invejam e que buscam copiar a qualquer custo: são as chamadas ―alpinistas sociais
Procuraram formar o lar afeiçoadas a modelos de elegância e a peculiaridades
obstinadas de afetação social, moldando o recinto doméstico ao que eles idealizam
a seu bel-prazer como ―chique‖.
Vestem-se à imagem dos outros, comparam carros, móveis, gostos e
comidas; negam a cada membro, de forma nociva, a verdadeira vocação, tentando
sempre copiar modos de viver que não condizem com suas reais motivações.
Há ainda outras agremiações familiares denominadas ―exibicionistas‖, em
que os membros do lar se associam para suprir a necessidade que nutrem de ser
vistos, ouvidos, apreciados e admirados. Ajudam-se mutuamente, ressaltando uns a
imagem dos outros e focalizando áreas que podem ser valorizadas pelo social,
como, por exemplo, a beleza física ou o recurso financeiro.
As pessoas vaidosas desse tipo familiar, quando bem sucedidas ou
conceituadas, alimentam exibição sistemática diante dos outros, como forma de
compensação ao orgulho de que estão revestidas.
Assim considerando, os laços de família formados em bases de fidelidade, amor, respeito e dedicação perdurarão pela Eternidade e serão cada vez mais
fortalecidos. Os espíritos simpáticos envolvidos nessas uniões usufruem indizível
felicidade por estar juntos trabalhando para o seu progresso espiritual. ―Quanto às
pessoas unidas pelo único móvel do interesse, elas não estão realmente em nada
unidas uma à outra: a morte as separa sobre a Terra e no céu‖,
28
conforme nos
certifica literalmente o texto de ―O Evangelho Segundo o Espiritismo‖.

A arte da aceitação
Capítulo 5, item 13
“O homem pode abrandar ou aumentar a amargura das suas provas pela maneira que
encara a vida terrestre...”
“... contentar-se com sua posição sem invejar a dos Outros, de atenuar a impressão moral dos
reveses e das decepções que experimenta; ele haure nisso uma calma e uma resignação...”
(Capítulo 5, item 13.)
Aceitar nossa realidade tal qual é representa um ato benéfico em nossa vida.
Aceitação traz paz e lucidez mental, o que nos permite visualizar o ponto principal
da partida e realizar satisfatoriamente nossa transformação interior.
Só conseguimos modificar aquilo que admitimos e que vemos claramente em
nós mesmos, isto é, se nos imaginarmos outra pessoa, vivendo em outro ambiente,
não teremos um bom contato com o presente e, conseqüentemente, não
depararemos com a realidade.
A propósito, muitos de nós fantasiamos o que poderíamos ser, não
convivendo, porém, com nossa pessoa real. Desgastamos dessa forma uma enorme
energia, por carregarmos constantemente uma série de máscaras como se fossem
utilitários permanentes.
A atitude de aceitação é quase sempre característica dos adultos serenos, firmes
e equilibrados, à qual se soma o estímulo que possuem de senso de justiça, pois
enxergam a vida através do prisma da eternidade. Esses indivíduos retêm um
considerável ―coeficiente evolutivo‖, do qual se deduz que já possuem um
potencial de aceitação, porquanto aprenderam a respeitar os mecanismos da vida,
acumulando pacificamente as experiências necessárias a seu amadurecimento e desenvolvimento espiritual.
Quando não enfrentamos os fatos existenciais com plena aceitação, criamos
quase sempre uma estrutura mental de defesa. Somos levados a reagir com
―atitudes de negação‖, que são em verdade molas que abrandam os golpes contra
nossa alma. São consideradas fenômeno psicológico de ―reação natural e instintiva‖
às dores, conflitos, mudanças, perdas e deserções e que, por algum tempo, nos
alivia dos abalos da vida, até que possamos reunir mais forças, para enfrentá-los e
aceitá-los verdadeiramente no futuro.
Não negamos por ser turrões ou teimosos, como pensam alguns; não
estamos nem mesmo mentindo a nós próprios. Aliás, ―negar não é mentir‖, mas
não se permitir ―tomar consciência‖ da realidade.
Talvez esse mecanismo de defesa nos sirva durante algum tempo; depois
passa a nos impedir o crescimento e a nos danificar profundamente os anseios de
elevação e progresso.
Auto-aceitação é aceitar o que somos e como somos. Não a confundamos
como uma ―rendição conformada‖, e que nada mais importa. De fato, acontece
que, ao aceitar-nos, inicia-se o fim da nossa rivalidade com nós mesmos. A partir
disso, ficamos do lado da nossa realidade em vez de combatê-la.
Diz o texto: ―O homem pode abrandar ou aumentar a amargura das suas
provas pela maneira que encara a vida terrestre‖. Aceitação é bem uma maneira
nova de ―encarar‖ as circunstâncias da vida, para que a ―força do progresso‖
encontre espaços e não mais limites na alma até então restrita, pois a ―vida
terrestre‖ nada mais é do que o relacionar-se consigo mesmo e com os outros no
contexto social em que se vive.
Aceitar-se é ouvir calmamente as sugestões do mundo, prestando atenção
nos ―donos da verdade‖ e admitindo o modo de ser dos outros, mas permanecer
respeitando a nós mesmos, sendo o que realmente somos e fazendo o que achamos
adequado para nós próprios.
Em vista disso, concluímos que aceitação não é adaptar-se a um modo
conformista e triste de como tudo vem acontecendo, nem suportar e permitir
qualquer tipo de desrespeito ou abuso à nossa pessoa; antes, é ter a habilidade necessária para admitir realidades, avaliar acontecimentos e promover mudanças,
solucionando assim os conflitos existenciais. E sempre caminhar com autonomia
para poder atingir os objetivos pretendidos.



Crenças e carma
Capítulo 5, item 4
“... A quem, pois, culpar de todas as suas aflições senão a si mesmo? O homem é, assim,
num grande número de casos, o artífice dos seus próprios infortúnios; mas, em vez de o reconhecer,
ele acha mais simples, menos humilhante para a sua vaidade, acusar a sorte, a Providência...”
(Capítulo 5, item 4.)
Mentalidade é a capacidade intelectual, ou seja, o conjunto de crenças,
costumes, hábitos e disposições psíquicas de um indivíduo. São registros profundos
situados no corpo espiritual, raízes de nosso modo de agir e pensar, acumulados na
noite dos tempos.
Nossa mentalidade atrai tudo aquilo que irradiamos consciente ou
inconscientemente.
Portanto, certos conceitos que mantemos atraem prosperidade e nos fazem
muito bem; outros tantos nos desconectam do progresso e da realidade espiritual.
Porque ainda não vemos as coisas sem o manto da ilusão é que acreditamos
em prêmios e castigos; na realidade, suportamos apenas as conseqüências de nossos
atos.
Dessa forma, tudo o que está acontecendo em tua vida é produto de tuas
crenças e pensamentos que se materializam; não se trata, pois, de punições nem
recompensas, mas reações desencadeadas pelas tuas ações mentais.
Certas idéias sobre o carma não condizem com a coerência e com a lógica da
reencarnação, levando-te a interpretações distorcidas e irreais sobre as Leis Divinas.
Carma, em sânscrito, quer dizer simplesmente‖ação‖.
Tuas ações, ou seja, teus carmas são positivos ou negativos, de conformidade com o que fizeste e segundo tuas convicções e valores pessoais.
Deus não julga os atos pessoais, mas criou leis perfeitas que dirigem o
Universo. Porque tens o livre-arbítrio como patrimônio, é que deves admitir que a
vida dá chances iguais para todos: a diferença está na credulidade de cada um.
A seguir, algumas formas negativas de pensar: ―Não posso mudar, é meu
carma‖; ―Tenho que sofrer muito, são erros do passado‖.
Se golpearmos algo para a frente, este objeto terá a força e a direção que lhe
imprimirmos.
Se continuarmos, pois, a golpeá-lo, recolheremos sucessivos retornos com
relativa freqüência e intensidade, conforme nossa ação promotora.
São assim teus carmas: atos e atitudes que detonas continuadas vezes, vida
após vida, recebendo, como conseqüência, as reações decorrentes de tua liberdade
de agir.
Por que, então, não mudas teu carma?
Jesus afirmou que as ações benevolentes impedem os efeitos negativos,
quando asseverou:
―Muito lhe foi perdoado porque muito amou, mas a quem pouco se perdoa,
é porque pouco ama‖.
25
Ou ainda: ―O amor cobre a multidão de pecados‖.
26
Algumas religiões e sociedades vingativas e condenadoras impuseram a
crença da punição como forma de resgatar a consciência intranqüila perante as leis
morais. Outras, mais radicais ainda, diziam que somente o sofrimento e o castigo
até a ―quarta geração‖27
eram o tributo necessário para que as criaturas pudessem se
harmonizar perante o tribunal sagrado, com isso olvidando que a Providência
Divina usa como método real de evolução apenas a educação e o amor.
Aquele que muito amou foi perdoado, não aquele que muito sofreu. O amor
é que cobriu, isto é, resgatou a multidão dos pecados, não a punição ou o castigo.
O sofrimento apenas nos serve como ―transporte das almas‖ de retorno ao
amor, de onde saímos, fruto da Paternidade Divina. A função da dor é ampliar
horizontes para realmente vislumbrarmos os concretos caminhos amorosos do equilíbrio.
Como o golpe ao objeto pode ser modificado, repensa e muda também tuas
ações, diminuindo intensidades e freqüências e recriando novos roteiros em tua
existência.
Transformar ações amando é alterar teu carma para melhor, atraindo pessoas
e situações harmoniosas para junto de ti.



Palavras e atitudes
Capítulo 18, item 6
“... Nem todos os que dizem: Senhor! Senhor! entrarão no reino dos céus: mas somente
entrará aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus...”
(Capítulo 18, item 6.)
Os bons dicionários definem comunicação como ato ou efeito de transmitir e
receber mensagens e que envolve duas ou mais pessoas. É o processo de

permutar
conceitos, gestos, ideais ou conhecimentos, falando, escrevendo ou através do
simbolismo dos sinais e expressões.
Enquanto a conversação entre dois indivíduos tem um caráter mais restrito de
comunicação, as atitudes que acompanham os diálogos têm um poder de
comunicação mais amplo, eloqüente e determinante.
O mecanismo que envolve a comunicação divide-se em três propriedades
básicas dos seres humanos e se torna possível porque usamos nossa ―percepção‖
ou ―sensibilidade‖ para captar as informações; depois avaliamos para poder
interpretar e compreender a mensagem; e, finalmente, ―expressamo-nos‖ com pala-
vras ou atitudes, baseadas nas reações emocionais provocadas pela maneira como
integramos aquela mesma mensagem.
As circunstâncias existenciais de nossa vida de relação são o resultado direto de
nossas atitudes interiores. Precisamos prestar atenção nos conteúdos de informação
que recebemos, não somente pelas mensagens diretas, mas também por aquelas que
absorvemos entre conteúdos simbólicos, inconscientes e subentendidos, na
chamada comunicação ―além da comunicação‖ convencional.
Jesus Cristo considerou a importância da palavra aliada ao crer, quando disse: ―não afeteis orar muito em vossas preces, como fazem os gentios, que
pensam ser pela multidão de palavras que serão atendidos‖.
23
O Mestre disse que não seria pela ―multidão de palavras‖ que nossas
súplicas seriam atendidas, mas que os sentimentos silenciosos seriam fatores
essenciais, ou seja, a sinceridade provida de vontade firme, intensidade e
determinação, unidas pela ―convicção‖, seriam conseqüentemente a forma ideal
para os nossos pedidos e apelos à Divindade.
O simples pedido labial não tem a mesma potência do pedido estruturado
em pensamentos concretos e firmes atitudes interiores.
Dizer por dizer ―Senhor! Senhor!‖ não nos dará permissão para ingressar no
Reino dos Céus, ―mas somente entrarão aqueles que fazem a vontade de meu Pai‖,
quer dizer, os que usam o desejo e o empenho como alavancas propulsoras em suas
palavras e solicitações.
Os estudiosos do comportamento dizem que todos nós, desde a infância,
recebemos através da comunicação um maior ou menor desenvolvimento
psicoemocional.
Afirmam que as informações recebidas através dos órgãos da linguagem -
essencialmente dentro de casa, dos pais e irmãos, ou fora da família, dos tios,
primos, avós ou amigos - agem sobre nós proporcionando recursos valiosos e
determinantes sobre nosso modo de pensar, e atraem pessoas e coisas ao nosso
redor. Certas informações, porém, captadas pelas crianças e adolescentes, explicam
esses mesmos estudiosos, são transmitidas através da comunicação não-verbal:
expressões corporais, mímicas, trejeitos do rosto, tonalidades, suspiros, lágrimas,
gestos de contrariedade ou movimento das mãos. O comportamento, as expressões
carinhosas e os monólogos da mãe com o feto na vida intra-uterina são
comunicações superinfluenciadoras na estrutura emocional e espiritual das crianças
em formação.
Todos nós recebemos e transmitimos mensagens articuladas
constantemente, retendo ou não essas mesmas informações. Realizamos somas ou
subtrações mentais com palavras e atitudes vivenciadas hoje e com outras recebidas ontem, para chegarmos a novos conceitos e conclusões da realidade.
Reconstituímos ocorrências passadas, antevemos fatos futuros, iniciamos e
alteramos processos fisiológicos na intimidade de nosso organismo com nossas
afirmações verbais negativas e positivas. Assim, compreendemos que a palavra tem
uma importância inegável: ela cria vínculos de natureza mental, emocional e
psicológica, altera o intercâmbio psíquico-espiritual e atua na formação de nossa
personalidade, por meio da interação palavras! Atitudes.
Em síntese, o poder da palavra em nossa vida é fundamental, e, se
observarmos a reação de nossas afirmações e atos, descobriremos que eles não
retornarão jamais vazios, mas repletos do material emitido.
Segundo o apóstolo Mateus, ―por nossas palavras seremos justificados, e por
nossas palavras seremos condenados‖,
24
pois diálogos são pensamentos que se
sonorizam e criam campos de energia condensada dentro e fora de nós.
Reformulemos, se for o caso, as comunicações ou atitudes que recebemos
na infância. Se porventura foram de severidade e rispidez, se nos menosprezaram
com mensagens negativas constantes, repetitivas e depreciativas, poderão ser elas a
razão de nossos sentimentos de inferioridade, rejeição e agressividade
compulsórias.
Não diga ―que dia horrível!‖ porque simplesmente está chovendo. A
dramaticidade é um dos fatores traumáticos de nossa existência, pois muitas dessas
expressões despretensiosas, repetidas muitas vezes, podem-nos conduzir a
verdadeiros turbilhões vivenciais.
Nossas palavras são filamentos sonoros revestidos de nossos sentimentos, e
nossas atitudes são o resultado de expressões assimiladas e determinadas pelo
nosso comportamento mental.

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